“Que frase hein?!”: O cotidiano e a literatura, em outro olhar

Essa semana o “Que frase hein?!” vai falar de uma escritora brasileira que é, por muitos, subestimada, quando na verdade deveria ser aplaudida por conseguir atingir o público que atinge, escrevendo o que escreve: falo de Martha Medeiros.

Image

Martha Medeiros, além de colunista no ‘Zero Hora’ e n’O Globo’, é autora de livros de prosa e poesia: já publicou mais de dez livros ao longo de sua carreira, dos quais já li quatro, e aqui contarei um pouco dessa experiência, porque experiências são muito mais verossímeis do que resenhas!

Image

O primeiro livro da autora com o qual tive contato é o “Poesia reunida”, que é uma seleção de poesias retiradas de seus livros ‘Strip-Tease’ (1985), ‘Meia-Noite e um Quarto’ (1987), ‘Persona non Grata’ (1991) e ‘De Cara Lavada’ (1995). Quando cheguei na metade do livro percebi que a visão que eu tinha da autora era totalmente deturpada, e que realmente vale a pena dedicar um tempinho pra conhecer melhor o seu trabalho. Como o filme “Divã”, baseado em um de seus livros, fez muito sucesso nos cinemas brasileiros, a autora acabou levando, em alguns meios, aquela fama elitista de que autores que escrevem coisas que a “massa” gosta são “autores menores”, e a visão que eu tinha dela era, em parte, influenciada por esse pensamento, mas “Poesia reunida” me fez ver que Martha Medeiros trata o cotidiano de forma leve e simples, mas sem deixar de levantar certas questões e reflexões, o que eu considero um mérito incrível, já que ela consegue mesclar muito bem o prazer da leitura divertida e fluida com a reflexão.

Depois disso, com a mente e o coração abertos para a obra da autora, li “Divã”, que eu esperava não ser tão bom assim quanto o “Poesia reunida” porque já havia assistido o filme e não tinha gostado muito: novamente, uma grata surpresa! Toda a superficialidade que havia me incomodado no filme não existia no livro. Nas páginas que nos contam a vida de Mercedes temos acesso a uma história muito mais subjetiva e reflexiva do que com o filme, e novamente Martha Medeiros me provou que é sim uma grande escritora no Brasil hoje. O terceiro livro da autora que eu li foi “Feliz por nada”, que reúne crônicas que iluminam nosso cotidiano, mostrando a realidade da nossa vida de uma forma singela e ao mesmo tempo próxima e distante da que vemos. Um trecho desse livro que achei incrível, e que abre a coletânea, acredito que mereça ser aqui reproduzido: “Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve.” Nessas crônicas encontramos o amor, a família, a amizade, nessa visão de quem vive no século XXI, nessa realidade tão abstratamente concreta e tão fugidia.

E por fim, o último livro de sua autoria que li foi “Noite em claro”, publicado pela coleção “64 páginas”, da LP&M Pocket. Essa foi a experiência mais diferente que tive com seu trabalho, porque senti sua escrita muito diferente, quando comparada com os livros anteriores, mas isso não é algo que eu julgue ruim, é apenas diferente. Aqui a escrita da autora se mostra mais quebrada, e ao mesmo tempo mais ritmada, o que eu relaciono com o próprio enredo da história: uma mulher, sozinha em seu apartamento, que resolve escrever um livro, em uma noite de insônia, enquanto chove, e é exatamente o ritmo dessa chuva que eu percebi nas variações do texto. Portanto, o adjetivo “diferente” para “Noite em claro” de forma alguma tem um caráter negativo, se trata exatamente do contrário. E para encerrar, deixo aqui reproduzido dois de seus poemas, que foi o meio pelo qual conheci e me encantei por essa escritora. E para quem ainda não leu nada dela, vá ler, e se quiser uma recomendação: comece pelas poesias, você não vai se arrepender.

“descubro meus vícios assim
cheguei na cabana e pensei
sem tevê eu não fico
sem você eu não vivo”

“o caminho é este
tem pedra, tem sol
tem bandido, mocinho
tem você amando
tem você sozinho
é só escolher
ou vai, ou fica

fui.”

Anúncios