“Sétima”: descobertas sutis

Mais uma vez a “Sétima” do Muquifo traz um curta delicado e incrível pra apresentar a vocês, mas dessa vez comento um curta brasileiro: “Eu não quero voltar sozinho”, com direção e roteiro de Daniel Ribeiro.

O curta é o segundo produzido na carreira de Daniel Ribeiro, que já participou de diversos festivais de cinema ao redor do mundo, e já recebeu mais de 80 prêmios, internacionais e nacionais. “Eu não quero voltar sozinho” estreou em 2010, no Festival Paulínia de Cinema, onde recebeu seus primeiros três prêmios, e desde então conquista os espectadores por onde passa.

O filme nos conta a história de Leonardo, deficiente visual que conta com a ajuda de sua amiga, Giovana, para se virar melhor na escola e em sua volta diária para casa: as coisas começam a mudar em seu cotidiano quando um novo aluno, Gabriel, chega a escola dos dois amigos, e começa a despertar sentimentos antes desconhecidos para Leonardo, e como efeito colateral dessa mudança também surge um novo sentimento em Giovana, o ciúme. A partir de então assistimos no curta a forma como Leonardo lida com esses seus sentimentos, de forma inocente, delicada e também envolvente.

Poucos foram os curtas no qual vi uma abordagem tão bonita e ao mesmo tempo tão orgânica da descoberta da sexualidade e do surgimento dos sentimentos de atração e afeto de uma forma mais carnal, e de certa forma também amorosa: e aí destaco também a atuação de Ghilherme Lobo, Tess Amorim e Fabio Audi, porque se não fosse por essa atuação tão bem feita não teríamos a mesma percepção do curta. “Eu não quero voltar sozinho” poderia se transformar em um relato clichê sobre preconceitos em geral, mas conseguiu trabalhar a temática de uma forma totalmente diferente: sútil e delicada, e falo isso porque são justamente essas as características que acredito terem feito o curta se transformar em uma experiência cinematográfica, e não em somente mais um filme.

Acho muito importante aqui falar que o filme chegou a sofrer censura dentro do Brasil, no Acre. Ele fazia parte do Cine Educação, programa que exibe filmes nas escolas em parceria com a Mostra Latino-Americana de Cinema e Direitos Humanos, e após ter sido exibido em uma sala de aula, o curta metragem foi confundido com o Kit Anti-Homofobia (que é mais homofóbico do que o nome pode sugerir), cuja distribuição havia sido proibida. Líderes religiosos do Acre pressionaram políticos da região e conseguiram a proibição do Programa Cine Educação e a exibição do filme nas escolas do estado.

Enfim, polêmicas a parte, uma notícia muito boa: ano que vem teremos um filme baseado no curta nos cinemas brasileiros. A estreia está prevista para o dia 28 de março e o filme se chamará “Hoje eu quero voltar sozinho”.

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