“Ligue os pontos” e sua poesia cotidiana!

Muitos conhecem Gregório Duvivier (do qual já comentei aqui) pelo seu trabalho como ator e roteirista, principalmente no Porta dos Fundos, mas esse não é o único ramo artístico abarcado pelo cara: ele também escreve poesia! Seu primeiro livro, “A partir de hoje eu juro que a vida vai ser agora”, foi imensamente elogiado, inclusive por Holoísa Buarque de Hollanda, Millôr Fernandes e Ferreira Gullar. O protagonista desse post, porém, não é seu primeiro livro, mas sim seu lançamento de 2013: “Ligue os pontos – Poemas de amor e big bang”.

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A poesia de Gregório consegue captar a imensidão das pequenices cotidianas, sem deixar de lado um lírico humor, construindo de forma espetacular cada palavra e estrofe, porém sem perder a espontaneidade. Nesse livro estão reunidos poemas escritos desde o lançamento do seu primeiro livro, que foram escolhidos e agrupados ao lado da Companhia das Letras. Temos uma divisão nessa obra: uma primeira parte, chamada “Cartografia afetiva”, e a segunda parte, “Aprender a gostar muito”.

Na primeira parte conhecemos a cidade na qual o autor mora, o Rio de Janeiro. Cada rua e cada canto carrega um pouco do autor e um pouco da sua poesia. As cenas cotidianas ganham um olhar singelo e sutilmente engraçado, trazendo para perto do leitor a sensação do lugar e a clareza de que cada espaço retratado em sua poesia tem alguma aura própria. Por mais que você não conheça o Rio deJaneiro (meu caso) com certeza se sentirá em casa, e terá a certeza de que o Rio de Janeiro continua lindo, e não só por suas paisagens de cartão postal, mas por suas pessoas e suas peculiaridades.InstagramCapture_72e66c04-2bb7-41c2-a3c3-8d06f6a4e719_jpg

Na segunda parte temos uma delicadeza incrível envolta nas cenas mais insignificantes do dia a dia, que na verdade são os momentos mais significativos e que nem percebemos. Essa foi a parte que encantou praticamente todos os leitores, e particularmente é a parte do meu livro com mais marcações! A poesia de Gregório tem um ritmo, e especialmente nessa segunda parte, uma delicadeza tão espontânea, mas ao mesmo tempo tão detalhadamente construída, que chega a espantar aqueles que tem um olhar pessimista sobre a atual produção poética do Brasil, e encanta qualquer apaixonado pela arte! Esse é um daqueles livros que até quem não gosta de poesia pode ler sem medo, porque vai ser amor na certa!

Gregório Duvivier, um artista plural!

Para começo de conversa, que fique registrado nos anais da internet: Gregório Duvivier é um amor de pessoa pública!

O Sesc, entidade privada mantida por empresários do comércio de bens e serviços, promove anualmente o Prêmio Sesc de Literatura, que visa promover a literatura nacional e revelar novos autores, mas essa não é a única atividade literária que a entidade promove. Além disso há o “Sesc Literatura – Grandes escritores”, que promove palestras e oficinas com grandes autores brasileiros. Em minha cidade, Juiz de Fora, já recebemos autores como Zuenir Ventura, Adélia Prado, entre outros, e na última edição, ocorrida ontem, o convidado de honra da noite foi Gregório Duvivier.

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Ao longo do bate papo com o mediador da mesa o autor falou sobre como nasceu seu envolvimento com a arte, desde seus 9 anos, quando começou a fazer teatro, e se apaixonou; até o momento atual da sua carreira, na qual se mostra um artista diverso: sendo colunista da Folha de S. Paulo, roteirista, poeta, comediante, e é claro, ator. Ao longo de todas as suas considerações, pudemos ver como ele administra todo esse trabalho, e de que forma vê a literatura, principalmente nacional, na contemporaneidade: além de comentar grandes escritores, como Augusto dos Anjos e Manuel Bandeira, citou novos grandes autores que devem permear nossas leituras, como Daniel Galera e Antônio Prata.

Gregório Duvivier falou sobre algo que aqui se faz extremamente importante destacar: a liberdade da poesia e da internet. Quando trabalhava na televisão, o escritor se sentia, de certa forma, preso a uma burocracia que parece inerente a TV, e na internet sua produção encontrou uma liberdade totalmente diferente, que é também o que o autor diz sentir quando compara sua produção poética a sua coluna no jornal, no qual tem sim uma liberdade de escrita que o próprio caracteriza como “surreal”, mas ainda assim não se compara a liberdade linguística e sentimental da poesia. E aí outro ponto importante, no que diz respeito principalImagemmente a internet, é o trato dado ao trabalho que ele realiza no “Porta dos fundos”. Um espectador presente na platéia questionou o autor quanto a questão do politicamente incorreto, que hoje gera discussões intermináveis nas redes sociais: Gregório se posicionou, então, dizendo como o humor é capaz de ser transformador, quando bate de frente com questões sociais, estando do lado das minorias, ao invés de simplesmente reproduzir chavões preconceituosos que deveriam já estar no passado.

Após o bate-papo com o mediador e os presentes no evento, foi aberta uma sessão de autógrafos na qual o autor se mostrou esse amor de pessoa pública que inicia o post: tirou fotos com todos, conversou com todos, fez dedicatórias, e ainda pôde nos dizer algumas palavras sobre o evento: afirmou achar esse tipo de iniciativa muito importante para a formação cultural de uma cidade, já que forma leitores, e quanto mais leitores temos, temos mais e melhores escritores, melhores eleitores, etc.

Para finalizar, fica a indicação de um dos poemas presentes em “Ligue os pontos”, que em breve será comentado mais em detalhes por aqui!