Falando de sexualidade e sociedade nos cinemas!

A infância é o momento no qual estamos aprendendendo a lidar com conceitos sociais e tentando compreender o funcionamento da sociedade, e por isso é uma fase da vida de muito aprendizado, e também muita confusão! Drama e delicadeza estão envolvidos no trato da infância e das tantas descobertas dessa fase em “Minha vida em cor de rosa”, filme comentado hoje no Muquifo (Sim, mais um francês! Sem julgamentos, por favor!).

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Título Original: Ma Vie en Rose Ano de produção: 1997 Direção: Alain Berliner Duração: 88 minutos

O filme nos conta a história de Ludovic e sua família: ele é um menino (biologicamente) um tanto quanto introspectivo, mas que não se isola totalmente e mantém um sorriso doce no rosto na maioria das cenas. Ludo, como é chamado, se reconhece como uma menina, e se comporta dentro dos padrões sociais esperados de uma menina (portanto é uma menina trans), o que fica claro logo nas cenas iniciais do filme, quando seus pais, recém-chegados na cidade, promovem uma festa para a vizinhança, e Ludo aparece de vestido e com maquiagem. Quando seus pais questionam aquela atitude, já longe dos vizinhos, Ludo afirma que queria se sentir bonita, usando sim o gênero em feminino, com a leveza e a inocência características da infância.

ImagemAcompanhamos, a partir de então, como a família de Ludo lida com sua transsexualidade e sua heterossexualidade confundida com homossexualidade, já que logo na festa e em suas primeiras cenas dentro da escola percebemos que ele se apaixona por um garoto da vizinhança, filho de um casal extremamente conservador, que representa o auge do preconceito no filme; e como ambos são, biologicamente, meninos, a vizinhança entende o comportamento enquanto uma “atitude homossexual”, e essa temática chega a ser comentada. Em certos momentos os pais de Ludo se mostram mais abertos a questão e a discussão, e em outros momentos repreendem de tal forma que, para nós, espectadores, chega a dar um aperto no peito. Todas as partes, porém, são mostradas de forma muito bonita: a dor da criança, que não entende porque não pode ser como se sente e tenta procurar explicações ou fugas à sua realidade; a dor dos pais, que precisam lidar com algo que não entendem e veêm o sofrimento da família; e a situação de completa cegueira social no que diz respeito ao preconceito com uma criança, que sofre tanto por algo que deveria ser compreendido como natural que é.

O filme é bastante pesado, ao mesmo tempo em que consegue ser bastante leve. O drama envolvido nas cenas carrega uma leveza característica da infância, mas também carrega o peso do preconceito com um ser tão puro e a respeito de algo tão natural. E um grande feito do diretor é ter conseguido imprimir em suas cenas esses sentimentos e todas essas críticas de uma forma não melodramática, e nem clichê, e com a mão certa para a escolha dos atores.

Esse é um daqueles filmes sobre o qual podemos passar horas falando e analisando, não só em termos cinematográficos, é claro, porque isso seria diminuir, e muito, toda a experiência que o filme proporciona, mas também discutir todas as questões levantadas, e o papel que cada personagem levanta e discute em suas ações. Esse é um filme necessário, portanto, a qualquer um que se interesse por narrativas bem construídas e principalmente pela temática da descoberta sexual e da questão de gênero na infância! Indico também a leitura desse e desse texto; ambos são excelentes, porém contém spoilers!

PS: Esse texto foi editado em alguns trechos colocando alguns detalhamentos entre parênteses, porque ele foi escrito para que qualquer um (mesmo quem não tem um amplo conhecimento sobre a questão de gênero e suas definições) fosse capaz de compreender, e isso acabou deixando com que alguns deslizes linguísticos passassem, tornando o texto, em certos momentos, cissexista: as alterações foram feitas, portanto, para que isso não ocorresse, mas ainda assim fosse um texto acessível e de fácil compreensão.

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“Ligue os pontos” e sua poesia cotidiana!

Muitos conhecem Gregório Duvivier (do qual já comentei aqui) pelo seu trabalho como ator e roteirista, principalmente no Porta dos Fundos, mas esse não é o único ramo artístico abarcado pelo cara: ele também escreve poesia! Seu primeiro livro, “A partir de hoje eu juro que a vida vai ser agora”, foi imensamente elogiado, inclusive por Holoísa Buarque de Hollanda, Millôr Fernandes e Ferreira Gullar. O protagonista desse post, porém, não é seu primeiro livro, mas sim seu lançamento de 2013: “Ligue os pontos – Poemas de amor e big bang”.

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A poesia de Gregório consegue captar a imensidão das pequenices cotidianas, sem deixar de lado um lírico humor, construindo de forma espetacular cada palavra e estrofe, porém sem perder a espontaneidade. Nesse livro estão reunidos poemas escritos desde o lançamento do seu primeiro livro, que foram escolhidos e agrupados ao lado da Companhia das Letras. Temos uma divisão nessa obra: uma primeira parte, chamada “Cartografia afetiva”, e a segunda parte, “Aprender a gostar muito”.

Na primeira parte conhecemos a cidade na qual o autor mora, o Rio de Janeiro. Cada rua e cada canto carrega um pouco do autor e um pouco da sua poesia. As cenas cotidianas ganham um olhar singelo e sutilmente engraçado, trazendo para perto do leitor a sensação do lugar e a clareza de que cada espaço retratado em sua poesia tem alguma aura própria. Por mais que você não conheça o Rio deJaneiro (meu caso) com certeza se sentirá em casa, e terá a certeza de que o Rio de Janeiro continua lindo, e não só por suas paisagens de cartão postal, mas por suas pessoas e suas peculiaridades.InstagramCapture_72e66c04-2bb7-41c2-a3c3-8d06f6a4e719_jpg

Na segunda parte temos uma delicadeza incrível envolta nas cenas mais insignificantes do dia a dia, que na verdade são os momentos mais significativos e que nem percebemos. Essa foi a parte que encantou praticamente todos os leitores, e particularmente é a parte do meu livro com mais marcações! A poesia de Gregório tem um ritmo, e especialmente nessa segunda parte, uma delicadeza tão espontânea, mas ao mesmo tempo tão detalhadamente construída, que chega a espantar aqueles que tem um olhar pessimista sobre a atual produção poética do Brasil, e encanta qualquer apaixonado pela arte! Esse é um daqueles livros que até quem não gosta de poesia pode ler sem medo, porque vai ser amor na certa!

Descoberta e sentimento em “Azul é a cor mais quente”

O filme que protagoniza o post do Muquifo hoje rende várias polêmicas, dentre elas longas cenas de sexo entre duas mulheres, a temática da descoberta sexual e tensões entre atrizes e diretores. Tudo isso, porém, não impediu que o filme fosse aclamado pela crítica e ganhasse a Palma de Ouro. Alguns portais, como o UOL, fizeram reportagens sobre essas várias polêmicas, compilando-as e colocando algumas entrevistas e críticas sobre o filme, vale a pena dar uma conferida. Enfim, que o tapete vermelho se estenda para “Azul é a cor mais quente”.

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Título Original: La Vie d’Adèle – Chapitres 1 et 2
Ano de produção: 2013
Direção: Abdellatif Kechiche
Duração: 177 minutos

A trama do filme é baseada no romance gráfico “Le Bleu est une couleur chaude”, de Julie Maroh: Adèle é uma garota de 17 anos que começa a se descobrir sexualmente, após se apaixonar a primeira vista por Emma e seus cabelos azuis. Acompanhamos como Adèle lida com essas descobertas sexuais e a moral de sua família e amigos, e também como se entrega a sua paixão e lida com a sua vida acadêmica e profissional.

tumblr_mrn0hllp7k1r4xrx9o1_500Muitas pessoas deixaram as salas de cinema quando as longas cenas de sexo surgiram nas telonas, mas também, muitas pessoas foram aos cinemas em busca dessas cenas: esqueçam isso! O que quero dizer é que o filme tem sim o sexo e o amor presentes, mas esse não é o principal. Estamos inseridos na vida de Adèle e trata-se de um filme sobre descobertas e sobre decisões.

O filme tem cenas muito intimistas, que nos aproximam cada vez mais das personagens, e isso faz com que nos envolvamos com a trama de uma forma única, o que demonstra uma excelente escolha do diretor. Uma escolha não tão boa assim seria a duração do filme, que tem quase 3 horas. É claro que isso não faz do filme uma experiência ruim, e todo esse tempo tem, inclusive, uma função, já que explora cada detalhe de cada emoção e cena, não tornando a coisa cansativa. Tenho, porém, a impressão de que o filme poderia ser um pouco mais enxuto em alguns momentos.

A fotografia da obra é maravilhosa, e qualquer um que aprecie a sétima arte deve dar atenção sim a esse filme, independente de polêmicas ou críticas quanto a sua duração e explicitude. Enfim, assistam ao filme e tirem suas próprias conclusões; e pra quem já assistiu, aguardemos o próximo! Indico também a leitura desse texto, que apresenta algumas reflexões interessantes a respeito do filme e sua repercussão.

Gregório Duvivier, um artista plural!

Para começo de conversa, que fique registrado nos anais da internet: Gregório Duvivier é um amor de pessoa pública!

O Sesc, entidade privada mantida por empresários do comércio de bens e serviços, promove anualmente o Prêmio Sesc de Literatura, que visa promover a literatura nacional e revelar novos autores, mas essa não é a única atividade literária que a entidade promove. Além disso há o “Sesc Literatura – Grandes escritores”, que promove palestras e oficinas com grandes autores brasileiros. Em minha cidade, Juiz de Fora, já recebemos autores como Zuenir Ventura, Adélia Prado, entre outros, e na última edição, ocorrida ontem, o convidado de honra da noite foi Gregório Duvivier.

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Ao longo do bate papo com o mediador da mesa o autor falou sobre como nasceu seu envolvimento com a arte, desde seus 9 anos, quando começou a fazer teatro, e se apaixonou; até o momento atual da sua carreira, na qual se mostra um artista diverso: sendo colunista da Folha de S. Paulo, roteirista, poeta, comediante, e é claro, ator. Ao longo de todas as suas considerações, pudemos ver como ele administra todo esse trabalho, e de que forma vê a literatura, principalmente nacional, na contemporaneidade: além de comentar grandes escritores, como Augusto dos Anjos e Manuel Bandeira, citou novos grandes autores que devem permear nossas leituras, como Daniel Galera e Antônio Prata.

Gregório Duvivier falou sobre algo que aqui se faz extremamente importante destacar: a liberdade da poesia e da internet. Quando trabalhava na televisão, o escritor se sentia, de certa forma, preso a uma burocracia que parece inerente a TV, e na internet sua produção encontrou uma liberdade totalmente diferente, que é também o que o autor diz sentir quando compara sua produção poética a sua coluna no jornal, no qual tem sim uma liberdade de escrita que o próprio caracteriza como “surreal”, mas ainda assim não se compara a liberdade linguística e sentimental da poesia. E aí outro ponto importante, no que diz respeito principalImagemmente a internet, é o trato dado ao trabalho que ele realiza no “Porta dos fundos”. Um espectador presente na platéia questionou o autor quanto a questão do politicamente incorreto, que hoje gera discussões intermináveis nas redes sociais: Gregório se posicionou, então, dizendo como o humor é capaz de ser transformador, quando bate de frente com questões sociais, estando do lado das minorias, ao invés de simplesmente reproduzir chavões preconceituosos que deveriam já estar no passado.

Após o bate-papo com o mediador e os presentes no evento, foi aberta uma sessão de autógrafos na qual o autor se mostrou esse amor de pessoa pública que inicia o post: tirou fotos com todos, conversou com todos, fez dedicatórias, e ainda pôde nos dizer algumas palavras sobre o evento: afirmou achar esse tipo de iniciativa muito importante para a formação cultural de uma cidade, já que forma leitores, e quanto mais leitores temos, temos mais e melhores escritores, melhores eleitores, etc.

Para finalizar, fica a indicação de um dos poemas presentes em “Ligue os pontos”, que em breve será comentado mais em detalhes por aqui!