“Arte e manhas”: arte dos muros aos papéis

A “Arte e manhas” dessa semana traz de aquarela a tinta spray, de camisas e bloquinhos a muros e intervenção no espaço urbano: falaremos hoje sobre o lindo trabalho de Evelyn Queiróz, Negahamburguer.

Image

Negahamburguer diz que o desenho sempre foi sua maior paixão, mas sempre acreditou que não fazia sentido colocar um desenho na parede ou no papel, se ele não passasse uma mensagem, e foi mostrando a realidade de uma forma doce e bonita, mas sem perder seu tom crítico, que a artista fez sua arte: seus principais temas são feminismo, sexo, cotidiano e aceitação do corpo.

Através de seus homens e mulheres, cis ou trans*, podemos perceber as várias formas, cores e perspectivas presentes dentro da sociedade, e é aí que Negahamburguer deixa de ser só um desenho na parede e passa a ser uma espécie de pensamento coletivo, que representa tantas pessoas.

Image

A artista paulistana pretende transpor sua arte das ruas para o papel não somente em forma de ilustração, mas agora também na forma de um livro. Através do Catarse o Projeto Beleza Real já conseguiu a arrecadação mínima para que o livro seja produzido e lançado, mas ele ainda não acabou: o projeto continua para tentar expandir esse trabalho, levando Negahamburguer a outros horizontes.

“Que frase hein?!”: traduções, adaptações, e uma boa história

Aproveitando esse final de outubro, para não deixar passar em branco o chamado “mês do terror”, o “Que frase hein?!” dessa semana comenta “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, de Washington Irving.

Image

“The Legend of Sleepy Hollow”, traduzido no Brasil para “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, nos apresenta um universo que de tão sossegado tem uma aura um tanto quanto mágica e sombria: uma terra colonizada por holandeses. É nesse ambiente que o leitor acompanha Ichabod Crane, professor forasteiro que chega a cidade e logo se interessa por Katrina Van Tassel, filha de um grande fazendeiro da região; e paralelamente a famigerada lenda do cavaleiro hessiano cuja cabeça foi arrancada por uma bola de canhão da Guerra de Independência. Ichabod, o professor excêntrico e supersticioso, é perseguido pelo cavaleiro após sair de uma festa na casa da família Van Tassel, e a partir de então desenvolve-se a investigação da lenda com professor e leitor juntos.

O conto, muito presente no imaginário popular americano por séculos, foi escrito em 1820, e já foi adaptado para diversas linguagens, como filmes e desenhos infantis. Esse foi um dos primeiros contos que se pretendem de horror já escritos na história da América, e também um dos mais antigos de toda a ficção norte-americana, o que explica certas falhas na narrativa, já que ele iniciou algo que antes não era desenvolvido, e já merece grande mérito por isso.

Vale muito a pena o conto em si, a história; porém é bom esclarecer alguns pontos. Particularmente acho que a tradução brasileira do título não foi das melhores, e serve muito mais como atrativo, depois do lançamento do filme homônimo, com direção de Tim Burton, em 1999, do que como um verdadeiro título da obra. Isso simplesmente porque o que protagoniza essa história não é especificamente o cavaleiro sem cabeça, mas sim Sleepy Hollow, o lugar sombrio no qual o cavaleiro aparece. Ler o conto esperando a mesma história do filme, que é apenas vagamente baseado no conto, e foca muito mais no cavaleiro em si, pode ser um tanto quanto decepcionante. De qualquer forma, tendo em mente esses dois pontos, acredito que a leitura do conto seja bastante proveitosa, principalmente para os que gostam de histórias de horror, porque ele é mais do que um conto: é um marco histórico para a literatura, e principalmente a literatura de horror. Sem contar que mesmo com essas pequenas falhas de narrativa que ele apresenta, a história é envolvente!

Gostaria apenas de fazer um adendo final elogiando a edição do conto, lançado pela Editora Leya, pelo selo “Barba Negra”: assim como os demais livros da coleção, as capas são lindas, o material do livro é muito bom, e ele tem ilustrações muito bonitas junto à história!

Image

Dentre as muitas adaptações do livro, destaco aqui o filme dirigido por Tim Burton e estrelado por Johnny Depp, que na verdade é muito mais uma inspiração do que uma adaptação, mas vale a pena assistir também:

E principalmente a adaptação feita pela Disney, que com muita certeza é uma das melhores adaptações que já vi na vida, e definitivamente não indicaria para crianças:

“Sétima”: uma flor rara no cinema brasileiro

O filme que protagonizará a “Sétima” do Muquifo, nessa semana, traz ao cinema brasileiro um frescor que há um certo tempo já faltava: nos últimos anos, talvez com a exceção de “Tropa de Elite” (1 e 2), a maioria dos filmes produzidos no Brasil, que acabaram se tornando um grande sucesso de público, não passam de comédias românticas – não desmerecendo o “gênero”, de forma alguma -, eis que surge “Flores raras” para quebrar esse e outros padrões.

O filme é inspirado no livro “Flores raras e banalíssimas”, de Carmen L. Oliveira, que dizem ir bem mais a fundo na história, o que já é de se esperar do tipo de narrativa da literatura, mas como não tive a oportunidade de lê-lo ainda, nem vou me atrever a entrar nesse terreno espinhoso! O longa metragem brasileiro é dirigido por Bruno Barreto e tem como foco principal o romance entre Elizabeth Bishop (Miranda Otto), poetisa norte-americana, e Lota de Macedo Soares (Glória Pires), arquiteta brasileira. A poetisa se vê em um momento de dificuldade para que continue a criar sua obra e resolve fazer uma viagem, para motivá-la, e o destino escolhido é a cidade maravilhosa: Elizabeth resolve visitar Mary (Tracy Middendorf), sua amiga de faculdade, que mora no Brasil e vive com Lota. É nesse meio que Elizabeth e Lota se apaixonam e a história se desenrola. Sinceramente não acredito que relatar cada fato que acontece no filme seja positivo ou negativo nesse caso, porque acho que o que vale nessa história não são em si os fatos, mas as sensações envolvidas nele, e a forma como eles ocorrem, sem contar as relações com o contexto histórico, que é exatamente o golpe militar no Brasil, e todas as questões psicológicas e humanas tratadas no filme, como pontos comuns e pontos divergentes em culturas diferentes, a forma como as pessoas se portam e tratam umas as outras, as relações interpessoais a que estamos submetidos, entre tantos outros aspectos presentes na obra. De qualquer forma, não me alongarei muito nessas descrições, porque nada do que eu falar pode substituir a experiência de assistir a esse incrível filme.

Image

Muitos críticos estão o julgando como “corajoso” e “arrojado” por se tratar de um casal lésbico, e um triângulo amoroso envolvendo três mulheres, que se amam, de formas diferentes, e tem diferentes tipos e níveis de relacionamento. “Flores Raras” veio, como já disse, para quebrar padrões, e esse é só mais um tabu que o longa metragem vem questionar, escancarando a realidade na cara daqueles que ainda não a conseguem ver com a naturalidade que lhes é intrínseca.

“Arte e manhas”: uma incrível miscelânea

O “Arte e manhas” dessa semana, orgulhosamente, apresenta: Lora Zombie.

Image

Lora é um pintora russa autodidata, que uniu sua influência grunge, e também um certo traço do punk, à arte de rua e cultura pop, criando obras incríveis, que mesclam a abstração e leveza da aquarela, com a geometria do traço, e essa é uma mistura espetacular. O trabalho da artista está começando a alcançar outros países, e por onde Lora passa, deixa muitos apaixonados pela sua mistura única! Ela já tem, inclusive, um livro lançado: “Grunge Art by Laura Zombie”.

Image

Image

Image

Dentre suas obras encontramos de autorretratos a obras extremamente críticas, sendo todas com uma qualidade incrível!Sinceramente não vejo forma melhor de apresentar a artista não sendo mostrar seu trabalho e seu processo de criação, que podemos acompanhar nesse vídeo, e em outros disponíveis em seu canal:

“Acordes para cuspir”: Rock na apoteozzy

No último domingo, dia 13, rolou no Rio de Janeiro o show do Black Sabbath, com abertura do Megadeth, e eu estive lá, portanto o “Acordes para cuspir” de estreia do Muquifo será logo em grande estilo!

Imagem

É difícil falar das sensações que envolveram esse show, porque ver Black Sabbath com três, dos quatro, integrantes “originais” da banda, é algo que não tem como explicar: só quem realmente gosta da banda é capaz de imaginar essa sensação! E o único que não é um dos integrantes originais, o baterista Tommy Clufetos, só somou nesse show! Fez solos de tirar o fôlego de cada um que estava lá, e para aqueles que acham que solos de bateria são chatos e monótonos: pagarão a língua com os solos desse cara! O setlist do show foi incrível, reuniu grandes clássicos, como “Iron Man”, “Black Sabbath” e “War Pigs”, e também músicas do CD novo (“13”), como “Age of Reason” e “God is Dead”. Valeu cada segundo de dor nos pés, sede, fome, aguardo na fila, calor e, é claro, o dinheiro investido. Ozzy, no auge de seus quase 65 anos, se mostrou ainda um belo de um showman: mesmo com as mãos trêmulas, e seu andar mais lento, fez um show com muita energia, e ainda relembrou uma de suas cenas mais clássicas, quando entrou no palco com um morcego de plástico na boca.

Imagem

As duas últimas músicas do show, “Children of the grave” e “Paranoid”, fizeram o público ir a loucura. Todos pulavam e gritavam, cantando as músicas, alguns chorando, outros não; mas todos sabendo que essa experiência foi única na vida de quem teve a oportunidade de ir a esse show, e presenciar a união de duas bandas tão importantes no cenário musical mundial! E a banda deixou o palco ao som de uma multidão cantando “olê, olê, olê, olê… sabbath, sabbath”.

E não foi só o show do Black Sabbath que foi emocionante e marcante, o Megadeth também mostrou toda a sua força e história dentro do rock mundial, apesar de a duração de seu show ter sido bem menor. O que não quer dizer que o show tenha tido menos energia, emoção, público e um setlist incrível. Só senti falta de algumas músicas do “Youthanasia”, que eu gostaria muito de ter ouvido!

Quanto a estrutura do show em si, há pontos negativos e pontos positivos. O palco, na apoteose, possibilita várias opções a quem vai assistir ao show, o que é muito bom; além disso, a localização do lugar também é interessante, pois há bares por perto, então há outras opções de alimentação além daquelas dentro do local do show. Lá dentro não encontrei nenhum bebedouro, o que considero extremamente negativo, ainda mais se tratando de uma cidade tão quente quanto o Rio de Janeiro, mas tirando isso, acredito que a estrutura do show tenha sido o suficiente e cumpriu com as necessidades do público.

Enfim, por mais que pareça um tanto quanto repetitivo… “Emocionante”: não há palavra que descreva melhor esse show duplamente incrível, que reuniu fãs de todas as idades e todos os cantos do Brasil!

“Que frase hein?!”: memórias de um jornalista no golpe

Uma edição bonita. Um autor que me fisgou. Um texto excelente. No “Que frase heim?!” de hoje vou comentar um pouco sobre “A revolução dos caranguejos”, de Carlos Heitor Cony.

Imagem

O texto é na verdade um relato de experiências passadas pelo autor durante o período do golpe militar no Brasil. A edição que irei comentar é a que compõe o compilado “Vozes do Golpe”, da Companhia das Letras; mas o mesmo texto pode ser encontrado em outros livros do autor, e muito facilmente na internet.

Carlos Heitor Cony é jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Durante a obra, o autor vai nos contando um pouco da sua atuação na imprensa durante o ano do golpe militar, e as consequências disso na sua vida: a perseguição do governo, e também um certo patrulhamento da esquerda política. Ao longo do texto vamos entendendo como a sua forma de fazer jornalismo acabou se alterando durante o ano do golpe, mesmo que talvez de forma orgânica e desproposital, os motivos disso, e como o resultado dessa metamorfose foram algumas prisões e algum tempo morando fora do país. Além disso, temos acesso a trechos de textos seus publicados na época, no jornal no qual trabalhava.

O texto é excelente, e super rápido de ser lido! Vale muito a pena, principalmente para quem gosta da temática da ditadura militar no Brasil, e para aqueles que se interessam pelo trabalho humano dentro da mídia. Em tempos de tantos protestos, tantas discussões políticas jogadas no ar, tantas certezas e incertezas, e principalmente tantas críticas e tantas mudanças dentro da mídia e da função do jornalista, acredito que essa seja uma boa indicação!

“Sétima”: Um brainstorming em 7 minutos

Inaugurando a “Sétima” desse pobre, porém limpinho (ou não), Muquifo, vou falar um pouquinho da animação argentina “El empleo”, ou para nós tupiniquins, “O emprego”.

O curta metragem foi desenvolvido pela empresa de animação Opusbou, e finalizado em 2008, com direção de Grasso Santiago e roteiro de Patricio Plaza, que trabalharam juntos na animação. São 7 minutos que causam um nó na garganta, e reflexões que podem durar horas. E não é a toa que a animação já rendeu mais de 100 prêmios internacionais: é realmente um incrível trabalho.

Image

De maneira geral o curta nos apresenta um mundo em que as pessoas são apenas cartas de um baralho, são apenas “coisas”, que servem para alguma outra pessoa-coisa, dentro de uma hierarquia de trabalhos. Bizarrice? Talvez não.

Pois será que já não vivemos em um mundo assim? Será que o funcionário que dá, quase que literalmente, a vid

a, pela empresa na qual trabalha, já não se tornou “coisa”? Será que algumas relações interpessoais já não cederam a “coisificação”? Será que já não somos um “ás de espadas” ou um “valete de copas” dentro o baralho da nossa própria vida e sociedade?

Essas são só algumas das perguntas que podem ser feitas a partir do curta “O emprego”, e não são perguntas fáceis de se responder, justamente por isso vale tanto a pena dedicar um tempinho a assisti-lo e refletir sobre o assunto.